
O cotidiano no presídio de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, fugia completamente da realidade esperada em uma unidade prisional. De acordo com a Polícia Federal, detentos tinham acesso a prostitutas, bebidas alcoólicas, comida por delivery e festas com pagode, em um esquema que envolvia agentes públicos e rendia lucros dentro e fora das celas.
As descobertas fazem parte da Operação La Catedral, que está em sua segunda fase, deflagrada na última terça-feira (8). No centro do esquema está Lyferson Barbosa da Silva, conhecido como “Mago” ou “Lobo”, que, mesmo preso, levava uma vida cercada de luxos. Ele é acusado de comandar o tráfico de drogas dentro da unidade e manter um verdadeiro laboratório de crack no espaço cultural do presídio.
A investigação aponta que Lyferson controlava a entrada de visitantes não autorizados, organizava festas e negociava diretamente com o então diretor da unidade, Charles Belarmino Queiroz, apelidado de “Charles Bronson”. O diálogo entre eles incluía repasses financeiros e lucros obtidos com a comercialização de joias e da quitanda do pavilhão.
Para tratar dos pedidos do dia a dia, como o acesso a garotas de programa e comida por entrega, Lyferson contava com a colaboração do chefe de disciplina, Eronildo José dos Santos, e dos policiais penais Cecília da Silva Santos e Everton de Melo Santana. Todos foram alvos da operação e estão presos preventivamente.

As provas que deram origem à investigação foram obtidas a partir da apreensão do celular de Lyferson. O aparelho continha conversas que revelavam pedidos de propina, negociações de celulares, bebidas e até de armas de fogo. Em uma das mensagens, o detento chega a pedir R$ 5 mil para liberar a entrada de bebidas alcoólicas.
A cela de Lyferson era um reflexo do esquema: equipada com televisão de tela plana, videogame, aparelho de som, roupas de grife e joias. Estima-se que ele possuía cerca de R$ 163 mil em objetos de ouro. Para a PF, esses itens têm valor ainda mais alto dentro da cadeia, pela dificuldade de acesso.
Na primeira fase da operação, realizada em fevereiro, outros servidores públicos já haviam sido detidos. Já a nova etapa teve como alvo o ex-secretário executivo da Secretaria de Administração Penitenciária de Pernambuco, André Albuquerque, afastado do cargo em dezembro de 2024.
As investigações continuam e devem apurar a extensão do envolvimento de outros agentes públicos no esquema, que expõe a fragilidade e a corrupção dentro do sistema prisional pernambucano.
