Explosão da violência armada: disputas entre grupos elevam tiroteios e número de mortos em Pernambuco

Enquanto os dados gerais indicam uma redução no número total de tiroteios na Região Metropolitana do Recife, os primeiros seis meses de 2025 revelaram uma realidade mais complexa e preocupante. Disputas entre grupos armados, que vinham se mantendo em níveis mais baixos nos últimos anos, atingiram números alarmantes, impulsionando a letalidade e afetando diretamente a população civil, inclusive crianças.
A capital e os municípios vizinhos vivenciaram um aumento expressivo de tiroteios relacionados a confrontos entre facções. Foram 18 ocorrências do tipo apenas no primeiro semestre, com um saldo de 16 mortos e 11 feridos — número muito acima do registrado em qualquer outro ano da série histórica do Instituto Fogo Cruzado. Recife liderou os registros com seis casos, seguido por Olinda e Paulista, com quatro cada, além de Cabo de Santo Agostinho, Goiana e Moreno.
A violência não se limitou às disputas diretas. O número de vítimas de balas perdidas também bateu recorde no período: 39 pessoas foram atingidas — 35 morreram e quatro ficaram feridas. Dessas, 31 estavam próximas de homicídios ou tentativas de execução. Olinda concentrou a maior parte desses casos, com 17 registros, seguida por Recife e Cabo de Santo Agostinho, ambos com oito vítimas.
Outro dado que acende o alerta diz respeito à violência contra crianças. Dez menores foram baleados nos primeiros seis meses de 2025 — o maior número da série histórica. Dentre os casos, duas mortes foram confirmadas. O aumento em relação ao ano anterior, quando cinco crianças foram atingidas, evidencia uma tendência perigosa que, segundo especialistas, reflete a ausência de políticas públicas efetivas de proteção à infância.
Apesar da queda de 25% no total de tiroteios em relação ao primeiro semestre de 2024 — passando de 983 para 736 ocorrências — e da redução nas vítimas baleadas (849 em 2025 contra 1.102 em 2024), os dados demonstram que a violência permanece concentrada e intensa. Ao todo, 631 pessoas morreram e 218 ficaram feridas. Recife manteve-se como o epicentro da violência armada, concentrando 37% dos tiroteios, o mesmo percentual de mortos, e 30% dos feridos.
Entre os bairros mais afetados, destacam-se Dois Unidos e Iputinga, no Recife, além de Goiana, que, mesmo fora da Região Metropolitana desde 2020, permanece incluída nas análises para manter a coerência histórica. Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Olinda e Paulista também aparecem com altos índices de violência.
As ocorrências em locais fechados e públicos também revelam o alcance da violência armada. Somente dentro de residências, 113 pessoas foram baleadas — média de quatro por semana. Já em eventos públicos, foram registrados 34 baleados, incluindo nove mortes, o maior número já contabilizado em um primeiro semestre desde 2019.
O perfil das vítimas mostra que os mais vulneráveis continuam sendo os mais atingidos. Homens seguem sendo maioria, com 605 mortos e 176 feridos. Entre as mulheres, 61 foram baleadas, 14 delas dentro de casa, e 11 foram vítimas de feminicídio ou tentativa. A população negra representa a maior parte dos baleados, com 457 registros entre os 849 casos em que a cor/raça foi identificada.
Os adolescentes também foram duramente afetados: 66 foram baleados — 46 morreram. Ainda que o número represente uma queda em relação a 2024, quando 78 foram atingidos, a violência continua alarmante. Entre os idosos, 16 foram baleados no semestre, com 13 mortes.
A coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado, Ana Maria Franca, critica a falta de ações efetivas. Para ela, embora o Plano Estadual de Segurança Pública reconheça crianças e adolescentes como grupo prioritário, ainda não houve implantação de medidas concretas para conter a escalada da violência. Segundo a especialista, o aumento das disputas territoriais entre grupos armados e o consequente crescimento do número de vítimas infantis e adolescentes revelam uma falha estrutural na resposta do poder público.
A atuação de grupos armados e a ausência de políticas públicas integradas, baseadas em evidências, continuam sendo entraves para frear a violência que atinge Pernambuco. Os dados apontam que, mais do que uma redução pontual nos tiroteios, é necessário repensar as estratégias de segurança e proteção social para que indicadores positivos se convertam, de fato, em segurança real para a população.



