
Diante do agravamento da violência e dos números alarmantes registrados nos últimos anos, organizações da sociedade civil do Cabo de Santo Agostinho lançaram um amplo Plano de Prevenção à Letalidade de Crianças, Adolescentes e Juventudes. A iniciativa surge como resposta direta ao cenário que colocou o município entre os mais violentos do país em 2025.
O plano foi elaborado pelo Fórum das Juventudes do Cabo (FOJUCA), em parceria com o Centro das Mulheres do Cabo (CMC) e a ONG Arco, e é resultado de conferências populares e escutas comunitárias realizadas ao longo do último ano. O material reúne 142 páginas de propostas voltadas ao enfrentamento da violência armada, da exclusão social e da ausência de políticas públicas efetivas nos territórios periféricos.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Cabo registrou uma taxa de 73,3 mortes violentas por 100 mil habitantes, índice que o colocou como o 5º município mais violento do Brasil em 2025. Dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco apontam que, somente no último ano, 141 pessoas foram assassinadas, sendo cerca de 90% jovens negros, moradores da periferia, com idades entre 15 e 29 anos.
Levantamentos do Instituto Fogo Cruzado reforçam a gravidade da situação ao indicar que o município ocupa a quinta posição em violência armada na Região Metropolitana do Recife, com recorrentes casos de pessoas atingidas por balas perdidas, muitas vezes dentro das próprias casas.
Construção a partir da periferia
Um dos principais diferenciais do plano é o método de elaboração. As propostas nasceram a partir de escutas diretas com jovens negros periféricos, mulheres e a população LGBTQIAPN+, especialmente em áreas marcadas por altos índices de violência. A ideia, segundo os organizadores, foi romper com modelos impostos de cima para baixo e construir soluções a partir da vivência de quem enfrenta o problema diariamente.
O documento está organizado em eixos que vão além da repressão policial. As diretrizes incluem ações nas áreas de educação, geração de renda, cultura, saúde mental, políticas de cuidado, acesso à justiça e fortalecimento comunitário, entendendo a violência como um fenômeno estrutural.
Para integrantes do FOJUCA, o plano também faz uma crítica direta à ausência do poder público. Apesar de o Cabo de Santo Agostinho possuir uma das maiores economias de Pernambuco, essa riqueza, segundo o movimento, não se traduz em proteção, oportunidades ou garantia de direitos para a juventude local.
Consulta pública
O Plano de Prevenção à Letalidade de Crianças, Adolescentes e Juventudes está disponível para consulta pública. O documento pode ser acessado por meio do site do Centro das Mulheres do Cabo e também pelas redes sociais do FOJUCA.
As entidades esperam que o material sirva como base para o diálogo com gestores públicos, órgãos de justiça e a sociedade em geral, além de pressionar por políticas efetivas que interrompam o ciclo de mortes que atinge, de forma desproporcional, a juventude periférica do município.
