E se tudo que eu soubesse, eu falasse?

Outro dia me peguei pensando: e se tudo que eu soubesse, eu falasse? Certamente teria muito assunto. Talvez aumentasse os acessos do site, ganhasse compartilhamentos e virasse conversa em grupos de WhatsApp. Mas também teria mais processos, mais desafetos e muito menos paz.
Estou me aproximando dos 26 anos na comunicação social. Desses, mais de 20 foram dedicados exclusivamente ao jornalismo na internet. É tempo suficiente para ter visto muita coisa, ouvido outras tantas e aprendido que nem sempre aquilo que chega ao conhecimento de um jornalista precisa, necessariamente, virar notícia. Nem sempre pensei assim.
Quando era mais novo e, reconheço, mais imaturo, publiquei coisas que hoje talvez analisasse com mais cuidado. Em alguns casos, depois precisei escrever outra nota, explicar melhor, corrigir uma informação ou até me retratar. Faz parte. Quem trabalha com notícia todos os dias está sujeito ao erro. O problema é quando o erro vira método.
Também publiquei fatos graves, com documentos, provas e apuração. Mesmo assim, ganhei desafetos. Isso também faz parte da profissão. Nem sempre uma notícia correta será bem recebida, principalmente por quem aparece nela.
Mas, depois dos 40, comecei a criar para mim uma regra que deveria parecer óbvia, embora não seja: nem tudo é notícia.
Há fatos que rendem clique. Há denúncias que dariam boas manchetes. Há histórias que certamente seriam muito comentadas. Só que isso, por si só, não quer dizer que devam ser publicadas.
Existe uma diferença enorme entre poder publicar e dever publicar.
Poder, quase sempre podemos. A questão é saber se devemos.
A eleição está se aproximando e, como acontece em todo período eleitoral, começam a chegar denúncias de todos os tipos. Algumas sérias. Outras mal explicadas. Muitas claramente produzidas por adversários para atingir alguém. Tem gente que imagina que basta mandar uma acusação para a redação e pronto: no outro dia estará publicada.
Não é assim. Pelo menos não deveria ser.
O jornalista não pode servir de arma para disputa política, vingança pessoal ou briga empresarial. Não somos correio de desafeto. Também não podemos transformar qualquer conversa de bastidor em escândalo só porque o assunto pode render audiência.
Vejo muitos colegas enfrentando processos por causa de notícias quentes, dessas que explodem nas redes durante algumas horas. Depois o público esquece, passa para outro assunto, e quem publicou fica sozinho diante da Justiça.
Aos colegas mais novos, principalmente aos que tiraram as fraldas profissionais outro dia, deixo um aviso: curtida não enche a barriga de jornalista. Compartilhamento não paga advogado. Comentário empolgado de leitor não serve como defesa em processo.
O que sustenta um profissional ao longo dos anos é outra coisa. É caráter, ética, responsabilidade e respeito pelas pessoas e pelas instituições.
Isso não quer dizer submissão. Jornalista não existe para agradar político, autoridade, empresário ou quem quer que seja. Mas também não existe para destruir reputações por impulso, vaidade ou busca de audiência.
Erramos, claro. Eu já errei. No texto, no título, na avaliação de uma pauta e até na decisão de publicar. A diferença é que, com o tempo, a gente deveria aprender a errar menos.
A faculdade ensina muita coisa, mas não ensina tudo. Há lições que só chegam com o tempo, diante da tela, quando é preciso decidir se aperta ou não o botão de publicar.
Essa talvez seja a parte mais difícil do jornalismo.
Escrever é importante. Apurar é indispensável. Mas saber quando não publicar também é parte da profissão.
Vivemos um tempo em que muita gente está preocupada com inteligência artificial. Eu, sinceramente, continuo mais preocupado com a desinteligência natural, como já alertou a ministra Cármen Lúcia.
A tecnologia pode ajudar, mas não substitui responsabilidade. Ela não sente o peso de uma acusação mal feita. Não recebe ligação de advogado. Não olha nos olhos de quem teve a vida atingida por uma informação divulgada sem necessidade.
Sou do tempo da máquina de escrever, da fita preta e vermelha. Errar naquela época dava trabalho. Hoje, o texto pode ser corrigido em segundos. O problema é que a consequência nem sempre pode ser apagada.
E não estou falando apenas de erro de português. Estou falando de erro editorial, moral e profissional.
Por isso, à medida que a campanha se aproxima, minha cautela aumenta. No site, no rádio, nas redes sociais ou em qualquer comentário público, penso cada vez mais antes de falar.
Não porque tenha medo da verdade.
Mas porque aprendi que verdade também precisa de contexto, responsabilidade e interesse público.
Nem tudo que eu sei posso publicar.
E, principalmente, nem tudo que eu sei devo publicar.
No fim das contas, curtidas passam, comentários somem e compartilhamentos são esquecidos.
A paz, não.
A paz não tem preço.



