Acidentes de moto lotam Hospital da Restauração e expõem aumento de fraturas graves no rosto

O avanço dos acidentes com motocicletas em Pernambuco tem provocado um aumento expressivo de casos graves atendidos no Hospital da Restauração (HR), no Recife. A situação preocupa especialistas da unidade, que apontam o crescimento de fraturas na face, principalmente na região abaixo dos olhos, como uma das consequências mais frequentes da violência no trânsito.
O tema ganhou destaque durante uma reunião do Programa de Residência em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do hospital, referência estadual no atendimento de traumas complexos. O encontro discutiu os desafios do tratamento de pacientes com fraturas orbitárias, lesões consideradas delicadas e que podem deixar sequelas permanentes.
Segundo a residente em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Edla Pereira, muitos pacientes chegam ao HR com múltiplas fraturas na região do rosto, o que torna o tratamento mais difícil e prolongado. Ela explica que os casos mais comuns envolvem danos simultâneos em diferentes ossos da face, exigindo avaliação detalhada por exames clínicos e de imagem.
Os números reforçam a gravidade do cenário. Apenas até meados de abril deste ano, o Hospital da Restauração contabilizou 930 atendimentos relacionados a acidentes com motocicletas. Nesse período, a equipe de cirurgia bucomaxilofacial realizou 212 procedimentos, sendo 182 em motociclistas feridos.
De acordo com o chefe da especialidade no HR, Carlos Lago, grande parte dos leitos da unidade é ocupada por vítimas de acidentes envolvendo motos. Muitos pacientes chegam politraumatizados e precisam de acompanhamento de diversas equipes médicas, incluindo neurocirurgiões e ortopedistas, além de longos períodos de internação.
Dados do Sistema de Informação de Acidentes de Transporte Terrestre da Secretaria Estadual de Saúde mostram que fatores como consumo de álcool e uso inadequado do capacete estão entre as principais causas dos acidentes graves. As ocorrências relacionadas a essas situações representam cerca de 40% dos casos registrados no primeiro trimestre de 2026.
Nas enfermarias do hospital, os números se transformam em histórias marcadas pela dor e pela recuperação lenta. Marcos Santos, de 24 anos, sofreu um acidente de moto no bairro da Várzea, no Recife, no fim de abril. Acostumado a pilotar desde a adolescência, ele relata que nunca havia passado por uma situação semelhante. O impacto foi tão forte que o capacete rachou durante a colisão.
Em outro leito, Tiago Vieira, de 29 anos, também aguarda cirurgia após sofrer uma queda de moto em Itambé, na Zona da Mata Norte. Ele conta que perdeu o controle da motocicleta durante a noite e caiu entre dois caminhões. Segundo o paciente, o capacete se soltou no momento do acidente.
A cirurgiã bucomaxilofacial Suzana Carneiro afirma que muitos dos traumas atendidos poderiam ser evitados com respeito às normas de segurança. Ela destaca que o não uso do capacete, ou o uso incorreto do equipamento, continua sendo um problema recorrente entre os pacientes que chegam à emergência.
O alerta acontece durante a campanha Maio Amarelo, movimento nacional voltado à conscientização sobre segurança no trânsito. Em 2026, a campanha traz o tema “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas” e chama atenção para o crescimento das mortes e lesões envolvendo motociclistas em todo o país.
Especialistas alertam que, além das sequelas físicas, os acidentes geram impactos sociais, emocionais e econômicos, tanto para as vítimas quanto para o sistema público de saúde, que enfrenta alta demanda por internações e cirurgias de alta complexidade.
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