Prefeito expulsa médicos de hospital em Barreiros e entidades denunciam exposição dos profissionais
Após discussão filmada, prefeitura anunciou mudança na gestão da unidade; Simepe contesta insinuações feitas pelo gestor e relata que plantonistas estavam em descanso

Uma abordagem do prefeito de Barreiros, Carlinhos da Pedreira (PP), a dois médicos do hospital municipal provocou manifestações de repúdio de entidades médicas em Pernambuco. Em imagens que circularam nas redes sociais, o gestor aparece gritando, ofendendo os profissionais e ordenando que deixem a unidade. O episódio ocorreu na noite de quarta-feira (4), durante uma visita sem aviso prévio.
Após o caso, a prefeitura anunciou o encerramento do contrato com a Associação João Paulo II, responsável pela administração do Hospital Jailton Messias de Souza Albuquerque. A Secretaria Municipal de Saúde assumirá temporariamente a gestão administrativa, operacional e assistencial enquanto o município prepara a contratação de outra organização.
Segundo o prefeito, a visita foi motivada por informações sobre demora no atendimento. Ele afirmou que encontrou a recepção lotada e recebeu a informação de que, dos três médicos no plantão, apenas um estava atendendo. Ao localizar os outros dois em um quarto, acusou os profissionais de estarem dormindo e insinuou que mantinham uma interação íntima. Essa interpretação é contestada pelo Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe).
Na gravação, Carlinhos da Pedreira chama os plantonistas de “vagabundos” e determina que saiam do hospital. Posteriormente, durante participação em um podcast, afirmou que havia retornado do Recife por volta das 22h e decidiu verificar o funcionamento da unidade. O gestor classificou a situação como negligência e disse ter demitido os dois naquele momento. Os nomes dos médicos não foram divulgados.
O Simepe afirmou que as imagens não demonstram o comportamento íntimo insinuado pelo prefeito. A entidade informou ter recebido relatos de que os profissionais descansavam após intensa atividade assistencial nas primeiras 12 horas de plantão, enquanto um terceiro médico permanecia no atendimento. Ressaltou também que o repouso, quando organizado com a continuidade da assistência, não caracteriza por si só abandono do serviço.
O sindicato criticou o constrangimento público, a antecipação de julgamentos e as insinuações sobre a vida privada dos trabalhadores. Também repudiou tentativas de desqualificação profissional baseadas em estereótipos de gênero, especialmente em relação às mulheres.
O Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) defendeu que eventuais problemas na assistência, nas escalas ou no funcionamento do hospital sejam apurados pelos canais institucionais competentes. Para o conselho, o dever de fiscalizar não autoriza a exposição de médicos ao julgamento público nem o comprometimento de sua honra e dignidade profissional.
Em nota, a prefeitura informou que a rescisão do contrato de gestão nº 026/2024 decorreu do acompanhamento e da avaliação da execução contratual. A administração agradeceu pelos serviços prestados pela associação e afirmou que adotará medidas para assegurar uma transição organizada, mantendo os atendimentos aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
A Associação João Paulo II foi procurada pelo g1, segundo o material encaminhado, mas não havia apresentado manifestação até a atualização da reportagem original.
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