O avanço da dengue pelo território brasileiro está diretamente relacionado às transformações climáticas observadas nas últimas décadas. Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou que 54% das microrregiões do país já apresentam níveis epidêmicos da doença, evidenciando uma expansão que alcança até localidades anteriormente protegidas pelas temperaturas mais baixas.

O levantamento analisou o comportamento da dengue entre 2006 e 2024 e constatou que o número de microrregiões com incidência epidêmica passou de 110 para 292. Nas demais áreas, que representam 46% do território analisado, os pesquisadores identificaram níveis de transmissão classificados entre médios e baixos, além de situações de risco esporádico ou incerto.
Um dos resultados mais preocupantes da pesquisa envolve a influência das anomalias térmicas, caracterizadas por temperaturas que se afastam significativamente dos padrões habituais de determinada região. Segundo os pesquisadores, a frequência dessas alterações apresentou forte relação com o crescimento da incidência da dengue ao longo dos anos.
Rio Grande do Sul registra avanço expressivo da dengue
O Rio Grande do Sul exemplifica a transformação no comportamento da doença. Embora o Brasil enfrente surtos de dengue desde a década de 1980, o estado gaúcho somente registrou seu primeiro caso de transmissão local em 2007. Até então, as condições climáticas dificultavam a circulação do mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão do vírus.
Esse cenário mudou drasticamente. Em 2024, quando o Brasil enfrentou um recorde de casos da doença, o Rio Grande do Sul contabilizou aproximadamente 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes.
Os números superaram os registrados na Bahia, estado tradicionalmente mais quente e com uma população cerca de 3 milhões de habitantes maior. No mesmo período, o território baiano apresentou aproximadamente 163 mil casos confirmados e 188 mortes.
A comparação demonstra como as condições climáticas anteriormente consideradas desfavoráveis à proliferação do mosquito deixaram de representar uma barreira suficiente para impedir epidemias.
Temperaturas elevadas favorecem reprodução do mosquito
O infectologista Celso Granato, integrante da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, explica que as mudanças climáticas interferem diretamente no ciclo de vida do mosquito transmissor.
Segundo o especialista, os ovos do Aedes aegypti possuem uma estrutura resistente, capaz de permanecer durante anos no ambiente. Quando encontram condições favoráveis de umidade e temperatura, podem eclodir e dar origem a novos mosquitos.
Outro aspecto destacado pelo infectologista é a possibilidade de transmissão do vírus da fêmea infectada para seus ovos, mecanismo que contribui para a manutenção do agente infeccioso no ambiente.
Os pesquisadores da Fiocruz também alertam que a expansão geográfica da dengue apresenta características de difícil reversão. Depois que o mosquito e o vírus conseguem se estabelecer em uma região, torna-se improvável que a transmissão seja completamente eliminada.
Dengue também avança em países de clima temperado
A expansão da doença não está restrita ao Brasil. Regiões do Hemisfério Norte, historicamente menos afetadas pela dengue, também passaram a registrar episódios de transmissão local.
Nos Estados Unidos, a região continental enfrenta um surto descrito como o maior de sua história. França e Itália também registraram casos autóctones em 2026, ou seja, infecções adquiridas dentro dos próprios territórios.
Para os especialistas, esses acontecimentos reforçam a relação entre alterações climáticas e a disseminação de doenças infecciosas. O aumento das temperaturas e as mudanças nos padrões ambientais podem favorecer a sobrevivência e a reprodução de mosquitos em localidades onde anteriormente encontravam dificuldades para se estabelecer.
O estudo da Fiocruz evidencia, portanto, que o enfrentamento da dengue representa um desafio cada vez mais amplo para a saúde pública brasileira, especialmente diante de um cenário climático que favorece a expansão territorial do mosquito transmissor.
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