
Havia grande expectativa para o debate da TV Globo. Muitos entendiam que seria este evento que definiria se haverá ou não segundo turno na eleição presidencial: Lula (PT) poderia ganhar alguns votos e garantir os 50% + 1 para liquidar a fatura no dia 2 de outubro; Jair Bolsonaro (PL) teria a chance de reverter o cenário e levar a disputa para o dia 30 de outubro.
O que era para ser um momento sério da corrida eleitoral tornou-se palco para o show de horrores do candidato autodenominado “padre” Kelmon (PTB) – mesmo que nenhuma igreja no Brasil o reconheça como detentor do título.
O prenúncio já havia vindo no debate do SBT, quando Kelmon foi chamado e serviu de escada para Bolsonaro, mas, naquela ocasião, sem Lula. O candidato do PTB é obrigado a ser convidado pela lei eleitoral, pela regra que estabelece que quem tem representação do Congresso deve figurar entre os candidatos chamados.
Sem medo de constrangimento, Kelmon leu as perguntas e repetiu a estratégia: quando podia perguntar para Bolsonaro, fazia elogios e perguntas simples; quando questionava opositores, pesava nas críticas. Os grandes enfrentamentos foram entre o pretenso padre e Soraya Thronicke (União Brasil) e o ex-presidente Lula.
Soraya chamou Kelmon de “padre de festa junina” e o petista o acusou de ser um farsante. A discussão entre Lula e Kelmon chamou atenção pelo tom. O ex-presidente perdeu a paciência e elevou o tom, em especial quando foi acusado de crimes.
Embates não costumam ser bons, mas o público já tinha entendido que a proposta de Kelmon era tumultuar o debate mais importante antes do primeiro turno. O petista ter explodido não teve um caráter negativo, porque muitos compartilhavam da irritação.
Todo o restante do que ocorreu no debate, a ideia de Lula de ser propositivo, a performance fraca de Bolsonaro, a eloquência de Simone Tebet, nada ganhou destaque. A noite foi do “padre” – o que não é necessariamente positivo.
O formato do debate da Globo também se mostrou prejudicial à produtividade. Foram quatro blocos, todos com embates diretos, sendo dois com temas livres e dois com sorteio dos assuntos. Com um candidato disposto a avacalhar o evento e longo tempo de duração, o formato cansou o espectador e não apresentou nada novo.
As perguntas de jornalistas, comuns em outras emissoras, poderiam ter mudado o cenário e dado menos palco para candidatos pouco interessados no processo eleitoral.
