
A cientista Neuza Frazzati transformou décadas de pesquisa em um avanço histórico para a saúde pública brasileira: a primeira vacina 100% nacional e de dose única contra a dengue.

O imunizante foi desenvolvido no Instituto Butantan e já começou a ser aplicado no Brasil após demonstrar elevada eficácia contra a doença, especialmente nos casos graves.

A vacina, chamada Butantan-DV, representa um marco científico. Além de ser produzida no país, é a única vacina contra a dengue no mundo que necessita de apenas uma dose para garantir proteção.
O impacto potencial é enorme. Desde o início dos anos 2000, mais de 18 mil pessoas morreram por dengue no Brasil e cerca de 25 milhões já tiveram a doença, que provoca surtos frequentes e pressiona o sistema de saúde.
Formada em biologia e doutora em biotecnologia pela Universidade de São Paulo, Neuza ingressou no Butantan ainda na década de 1980 e dedicou sua carreira ao desenvolvimento de vacinas.
Antes da dengue, ela já havia liderado pesquisas importantes, como o desenvolvimento de uma vacina contra a raiva produzida por um método inovador que dispensa o uso de tecidos de origem animal. O trabalho foi reconhecido internacionalmente e premiado com o Prêmio Péter Murányi-Saúde.
A experiência acumulada ao longo de anos de pesquisa foi fundamental quando surgiu o desafio de enfrentar a dengue — uma doença complexa, causada por quatro tipos diferentes de vírus.
O desenvolvimento da vacina exigiu anos de testes e centenas de experimentos até alcançar uma fórmula capaz de proteger contra todos os sorotipos da doença.
Um dos maiores desafios foi garantir a estabilidade do imunizante em um país de dimensões continentais. Para resolver o problema, a equipe adotou a técnica de liofilização, transformando a vacina em pó para facilitar transporte e armazenamento.
Após passar por todas as fases de estudos clínicos exigidas para vacinas — incluindo testes de segurança, resposta imunológica e eficácia — o imunizante foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária no final de 2025.
A vacina demonstrou eficácia de cerca de 75% contra a dengue e superior a 90% na prevenção de casos graves e hospitalizações, resultados considerados altamente relevantes para o controle da doença.
As primeiras doses começaram a ser distribuídas no país neste ano. Inicialmente, a vacinação ocorre em grupos prioritários, mas a expectativa do Ministério da Saúde é ampliar a aplicação para pessoas entre 15 e 59 anos até o segundo semestre.
Hoje o Brasil já utiliza no sistema público a vacina Qdenga, que é importada e aplicada em duas doses. A nova vacina nacional surge como alternativa estratégica por exigir apenas uma aplicação e ter produção no próprio país.
Especialistas apontam que, com uma cobertura vacinal de cerca de metade da população, já seria possível reduzir drasticamente o número de casos da doença.
Embora eliminar completamente a dengue ainda seja um desafio — devido à presença do mosquito transmissor em regiões tropicais — a vacina brasileira representa um passo decisivo para diminuir mortes e o impacto da doença no país.








