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Bala perdida: um problema nacional

Foto: Tima Miroshnichenko

A violência armada é um desafio para quem vive nas metrópoles brasileiras. No tráfego, nas ruas ou em casa, os tiros, muitas vezes, são um risco.  Não são raros os casos de vítimas de balas perdidas em situações rotineiras. Até uma ida à padaria pode ser atravessada por uma situação violenta. Na Bahia e no Rio de Janeiro, houve casos do tipo, contabilizados pelo Instituto Fogo Cruzado nos primeiros três meses de 2023.

No dia 3 de março, Antônio Carlos de Souza, de 68 anos, foi baleado quando saía de casa para comprar pão no bairro da Ribeira, em Salvador. O mesmo aconteceu com outro idoso de 64 anos, atingido por uma bala perdida no dia 17 de março, na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio, quando estava a caminho da padaria. 

Entre os dias 1º de janeiro e 31 de março deste ano, 47 pessoas foram vítimas de balas perdidas (13 mortas e 34 feridas) na região metropolitana do Rio de Janeiro. Isso representa um crescimento de 81% em relação ao mesmo período em 2022 (26). Na Bahia, a situação é também preocupante: houve 18 vítimas de balas perdidas em Salvador e região metropolitana (cinco mortas e 13 feridas), estado onde o Fogo Cruzado atua desde julho de 2022. Março já é o mês com o maior número de vítimas neste período: 10 pessoas foram atingidas. No Grande Recife, houve 12 casos de vítimas de balas perdidas (duas mortas e 10 feridas). Entre as atingidas, uma criança e dois adolescentes.

“Os estados não produzem dados sobre balas perdidas porque divulgar esses números é uma forma de admitir a falha na segurança pública. O Rio de Janeiro produzia essa informação até 2012, mas depois o indicador desapareceu das estatísticas. Acontece que esse é um dado básico para se pensar a segurança pública no Brasil. Somos um país conhecido internacionalmente pela bala perdida e não há como superar esse problema sem informação sobre ele. Como vamos criar políticas públicas que protejam a população sem saber quem são essas vítimas, onde, com qual frequência e em que situação elas são atingidas?”, afirma Cecília Olliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado. 

No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL), ao tentar justificar episódios de excessos policiais em operações, afirmou que o enfrentamento com tiros “é necessário para proteger e garantir o direito de ir e vir” da população. 

Os dados do Fogo Cruzado deixam claro, entretanto, que operações policiais com muitos tiroteios, especialmente as letais, com muitas mortes, apenas impedem, e não garante, o direito de ir e vir: postos de saúde são fechados, escolas suspendem as aulas, o transporte público é afetado e trabalhadores não conseguem se locomover para o trabalho.

OS DADOS DE BALAS PERDIDAS

 No Grande Rio, o número de vítimas de balas perdidas tem tendência de alta: 

  • Primeiros 90 dias de 2023 (01/01 a 31/03): 47 vítimas de bala perdida.
  • Primeiros 90 dias de 2022 (01/01 a 21/03): 26 vítimas de bala perdida.
  • Últimos 90 dias de 2022 (03/10 a 31/12): 35 vítimas de bala perdida.

Na Região Metropolitana do Recife, o número de vítimas está estável. 

  • Primeiros 90 dias de 2023 (01/01 a 21/03): 12 vítimas de bala perdida.
  • Primeiros 90 dias de 2022 (01/01 a 21/03): 14 vítimas.
  • Últimos 90 dias de 2022 (03/10 a 31/12): 13 vítimas. 

Em Salvador e Região Metropolitana, os primeiros 90 dias de 2023 tiveram mais casos de balas perdidas do que o período final de 2022. Não há comparativo com os primeiros 90 dias de 2022: o Fogo Cruzado começou a atuar em Salvador em julho. 

  • Primeiros 90 dias de 2023 (01/01 a 21/03): 18 vítimas de bala perdida.
  • Últimos 90 dias de 2022 (03/10 a 31/12): 8 vítimas de bala perdida.

Cecília Olliveira destaca a importância dos dados produzidos pelo Fogo Cruzado. “A sociedade precisa saber que é preciso a sociedade civil se organizar para existirem dados sobre balas perdidas. Vivemos em metrópoles onde as pessoas temem a bala perdida, mas o Estado opta pela falta transparência, de dados de qualidade para subsidiar políticas públicas”, finaliza.

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