Após 36 anos em condição análoga à escravidão, mulher pede para voltar à casa dos antigos patrões no Recife
Caso expõe vulnerabilidade social da vítima após o resgate e leva Ministério Público do Trabalho a investigar falhas no atendimento assistencial do município
A trabalhadora foi retirada da casa onde vivia e trabalhava em novembro de 2025, no bairro de Porto da Madeira, Zona Norte da capital pernambucana. Segundo as apurações realizadas à época, ela estava submetida desde a adolescência a uma rotina marcada por jornadas exaustivas, restrições de liberdade e ausência total de remuneração.
Após o resgate, a mulher optou por morar com familiares e deveria receber acompanhamento dos serviços de assistência social. No entanto, meses depois, ela voltou a procurar o MPT relatando sentimentos de solidão e afirmando que o suporte oferecido pelos órgãos públicos havia sido interrompido.
Diante da situação, o Ministério Público do Trabalho acionou a Prefeitura do Recife para reforçar o atendimento à vítima. Entre abril e maio deste ano, foram realizados diversos pedidos formais para que equipes municipais localizassem e acompanhassem a trabalhadora. Apesar das tentativas relatadas pela gestão municipal, a mulher não foi encontrada nos endereços informados.
Segundo o MPT, a falta de acompanhamento contínuo evidencia fragilidades na política pública voltada às vítimas de trabalho escravo contemporâneo. O órgão destacou que pessoas resgatadas costumam enfrentar elevado grau de vulnerabilidade econômica, emocional e social, exigindo suporte permanente para evitar novas situações de exploração.
A Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas avaliou que o caso demonstra falhas no atendimento socioassistencial e determinou a abertura de procedimento para apurar a atuação do município. O objetivo é verificar se os protocolos de acolhimento, monitoramento e proteção podem ser aprimorados.
Quando procurada, a Prefeitura do Recife informou que atuou dentro das atribuições previstas pela Política Nacional de Assistência Social. A gestão afirmou ter oferecido acolhimento institucional logo após o resgate, mas a trabalhadora preferiu permanecer com parentes.
A administração municipal também declarou que equipes realizaram visitas aos locais informados, incluindo a residência de familiares e uma unidade de saúde onde a mulher era atendida, sem sucesso na localização. Além disso, destacou que profissionais do Cadastro Único estiveram no endereço posteriormente informado pelo MPT, mas a trabalhadora também não foi encontrada.
Em nota, a prefeitura ressaltou que a assistência social não possui atribuição para investigações ou fiscalização, funções que cabem a outros órgãos nas esferas trabalhista, administrativa e criminal. A gestão afirmou ainda que continuará colaborando com as autoridades e mantendo os encaminhamentos necessários para pessoas em situação de vulnerabilidade.
O caso chama atenção para os desafios enfrentados por vítimas de trabalho escravo após o resgate. Especialistas apontam que, além da libertação da situação de exploração, a reconstrução dos vínculos sociais, da autonomia financeira e da rede de apoio é fundamental para evitar que essas pessoas retornem aos mesmos ambientes onde sofreram violações por décadas.




